Prata e Bronze

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Olhai! Eu vos mostro o super-homem... Kimota!




A história editorial de Marvelman é possivelmente uma das mais conturbadas de toda a indústria. O personagem inglês começou como uma alternativa criada por Mick Anglo, artista e escritor, para a editora C. Miller & Sons, que republicava em preto e branco as histórias do Capitão Marvel na Inglaterra. Em 1953, tais histórias simplesmente deixaram de aparecer graças ao famoso processo movido pela National  (hoje DC Comics) contra a Fawcett, com a alegação de que o Capitão Marvel se parecia muito com o personagem principal da editora, o Superman.

O Capitão Marvel era extremamente popular nos dois lados do oceano. A C. Miller & Sons não podia se dar ao luxo de ficar sem aquelas histórias. Então, em 1954, Anglo teve a ideia de “criar” um personagem parecido o suficiente para satisfazer os leitores. As mudanças foram, para dizer o mínimo, cosméticas. Por exemplo, não era o menino Billy Batson que com a sua palavra mágica SHAZAM se tornava o mortal mais poderoso da terra, mas sim Mike Moran (aliteração proposital) que gritava “KIMOTA!” (algo como “atomic” ao contrário). E a origem de seus poderes parecia ser de origem científica, ou pelo menos o que a percepção leiga da época, acostumada com os pulps (muitos deles de qualidade duvidosa), achava que era científico.

Marvelman foi publicado até 1963. O interesse por ele passou. Os meninos cresceram. E a Marvel  Comics estava tomando o mundo de assalto. Inclusive a Inglaterra. Mas ele ficou na mente de um garoto de imaginação fértil que havia lido o personagem em sua infância: Alan Moore.

Em 1982, uma nova revista estava surgindo na Inglaterra. A Warrior, que buscava abocanhar os leitores de outra instituição britânica, a 2000 AD, a revista semanal de ficção científica e fantasia. Moore, já adulto, foi responsável por dois projetos. O primeiro era V for Vendetta, que falava sobre um futuro próximo distópico mergulhado em um estado fascista. O outro era Marvelman.

Moore declarou que desde que ele tinha lido Marvelman quando criança, ele pensou em usá-lo em uma história cômica, nos moldes do “Superduperman”, a famosa paródia de Harvey Kurtzman  e Wally Wood para a Mad, ainda na década de 50. Ele disse que seria interessante mostrar Moran já adulto, não se lembrando da palavra mágica que o transformava.

Quando lançou a Warrior, o editor Dez Skinn tinha decido desde o início a trazer Miracleman de volta. O polêmico Skinn, considerado por muitos o “Stan Lee britânico” já havia trabalhado como diretor editorial  na Marvel UK (a divisão inglesa da Marvel) e por um tempo fez que ela saísse do buraco que se encontrava. E fez que ele estabelecesse contato com vários artistas que acabaram por trabalhar na Warrior. Um deles era Alan Moore.

Mas Alan Moore não foi a primeira opção de Skinn. Ele queria Steve Parkhouse ou outro Moore, Steve (nenhum parentesco com Alan). Ambos declinaram, mas Steve disse que seu amigo Alan adoraria escrever a série. Skinn concordou e pediu um projeto para a série. Os desenhistas, para Skinn, deveriam ser ou Dave Gibbons ou Brian Bolland, mas ambos recusaram. Finalmente, a contragosto de Skinn, Gary Leach foi escalado (e logo substituído por Alan Davis).



Quando Moore finalmente pôs as suas mãos no personagem, a ideia da comédia foi rapidamente esquecida e ele transformaria Marvelman em um dos quadrinhos mais sérios, violentos e seminais da década de oitenta. E possivelmente de todos os tempos.

Em Warrior 1, de Março de 1982, somos apresentados a um Mike Moran adulto, casado e com terríveis dores de cabeça. Tendo pesadelos recorrentes e incapaz de lembrar  de uma palavra que o atormentava durante o sono.  Trabalhando como um repórter freelancer, durante um ataque terrorista a uma usina nuclear ele vê a palavra “Atomic” escrita em uma janela e a palavra volta a sua mente. E Marvelman está mais uma vez no mundo. Ele lembra que ele e seus companheiros foram pegos em uma explosão atômica e isso fez que ele se esquecesse de quem era, esquecesse toda a sua carreira passada de super-herói.

Na verdade, esse cenário é apenas a desculpa para Moore analisar alguns temas que depois ele trabalharia em várias outras de suas obras. O fascínio com o conceito quase fascista do super-herói, a ideia de um vilão simpático aos leitores e doses cavalares de niilismo.

Marvelman foi publicado em preto e branco nas páginas da Warrior desde o seu primeiro número até o último, o vinte e seis. Infelizmente a revista foi cancelada e Moore deixou inacabado tanto V for Vendetta quanto Marvelman. Mas seu trabalho na Warrior e na 2000 AD havia feito que várias  antenas se virasse para a Inglaterra. Moore foi o primeiro de uma leva de autores que começou a trabalhar nos Estados Unidos, a famosa “Invasão Britânica”.

Em 1983 ele foi contratado por Len Wein para escrever o título terciário Saga of the Swamp Thing, com um personagem que nem de longe inspirava simpatia. O título era, para ser gentil, apenas formulaico. O run de Moore é um dos mais emblemáticos do personagem e lançou sementes (sem trocadilho) para o futuro selo adultas da editora, a Vertigo.

Swamp Thing abriu caminho para Watchmen, considerado por muitos,  um dos melhores quadrinhos já criados. E fez que a DC desse continuidade a V for Vendetta, primeiro colorizando e reimprimindo o material que tinha sido publicado pela Warrior e depois encomendando a Moore e ao artista David Lloyd a sua conclusão.

Eram favas contadas até que a outra “obra perdida” de Moore aparecesse nos Estados Unidos. Marvelman, batizado agora como "Miracleman" (e assim evitar problemas legais com a Marvel Comics) foi, a exemplo de V for Vendetta, colorizado e começou a ser publicado. Não pela DC, mas sim pela pequena Eclipse Comics em 1985.




Dessa forma, Moore pode continuar e finalizar a história que havia começado na Warrior anos antes. Ele escreveu Miracleman até o arco “Olympus” que terminou no décimo sexto número da Eclipse. E se algumas coisas que ele tinha feito na história ainda na Inglaterra haviam chocado muita gente, ele fez ainda mais. Muito mais mesmo.

Moore, depois de encerrar a sua participação no personagem passou a incumbência a outro escritor inglês que estava começando nos EUA, Neil Gaiman, que ficaria mais tarde famoso com Sandman. Ele fez um arco completo e iniciou o segundo, escrevendo do 17 ao 24 (e deixando o 25 não publicado). A arte ficou a encargo de Mark Buckingham. Mas a Eclipse faliu e deixou várias séries inconclusas. Entre elas Miracleman.




Em 1996, Todd McFarlane comprou as propriedades da Eclipse incluindo Miracleman. Só que Gaiman dizia ter direitos também. Direitos passados a ele verbalmente por Moore. Gaiman fundou em 2001 a Marvels and Miracles LCC, uma companhia que buscava clarificar os direitos de Miracleman. McFarlane já havia usado os personagens em Hellspawn e Gaiman o processou em 2002.

Mas o balaio de gatos ainda era pior. Skinn, quando começou a série na Warrior não havia comprado os direitos de Mike Anglo. Ou seja, a venda para a Eclipse e a subseqüente compra por McFarlane não tiveram nenhum valor legal, fazendo que de certa forma todo o material publicado tanto pela Warrior quanto pela Eclipse não fossem mais que edições piratas.

Isso fez que a Marvel (e os advogados da companhia que a havia adquirido, a Disney) pudesse negociar os direitos com Anglo diretamente. Tanto que em 2010 lançou um encadernado com as histórias de Anglo. Mas obviamente não eram essas as histórias que a maioria dos leitores queria ver republicadas. E a pedra da vez foi Alan Moore, que depois de brigas homéricas com a DC (sobre Watchmen) não estava nem um pouco interessado em ver suas histórias serem republicadas nos EUA, mesmo que fosse pela Marvel (outra companhia que ele não tinha boas relações, desde a época que fez o Capitão Bretanha para a Marvel UK).

Finalmente, Moore foi convencido a permitir a publicação desde que seu nome não fosse citado. 

Então em janeiro de 2014 a primeira edição pela Marvel, desenhada por Leach e escrita pelo “escritor original” foi colocada a venda.



Relendo essas histórias depois de tantos anos uma coisa pode ser dita:  elas não envelheceram. Aliás, uma coisa me surpreende: a erudição de um Moore ainda jovem. E ele, desde início (como lhe é costumeiro, diga-se de passagem), joga limpo com o leitor. Iniciar a sua história com a citação de Nietzsche em “Also Sprach Zarathustra” é a prova disso.

“Behold, I give you the superman” ... Esse é o mote de toda da série. Ele todos os conceitos aparentemente sem noção e ridículos de Anglo e os explora e explica sob a luz de Nietzsche. Para Moore, existia uma lógica no estranho e colorido mundo dos super-heróis.

Em minha opinião, Miracleman foi o laboratório para as suas grandes séries posteriores, como Watchmen e Swamp Thing. Em Swamp Thing, em apenas um número ( o 21, “Anatomy Lesson”) ele desconstrói  toda a história do personagem. Aquela única edição é muito mais relevante que toda a fase de Len Wein e Bernie Wrightson.

Aliás, os paralelos entre “Anatomy Lesson” e todo o Miracleman são muitos. Mas o principal é que até a fase de Wein, o Monstro do Pântano era um ser humano que havia se transformado em uma planta. Moore determinou que na verdade era uma planta que pensava que era um ser humano. Mike Moran é induzido a pensar que era uma coisa, mas a verdade não é bem essa. E qualquer coisa mais que escreva aqui será um spoiler BEM grande, então...

A primeira edição da Marvel está extremamente agradável aos olhos, com novas cores e transferência de arte diretamente da Warrior, feitas por Steve Oliff. E vários extras, como uma entrevista conduzida pelo CEO da Marvel, Joe Quesada (e autor de uma das múltiplas capas variantes dessa edição), com Anglo, pouco antes de seu falecimento.




Bem, quem não leu a série no início dos anos oitenta tem agora outra chance. Não desperdicem. 

Serviço

O Miracleman de Moore teve quatro edições publicadas no Brasil pela Editora Tannos, entre 1989 e 1990. 

A Marvel continua publicando a série mensalmente e já lançou o primeiro encadernado em capa dura, A Dream of Flying. 

A Panini Comics informou que pretende publicar a série no Brasil, ainda em 2014. 

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

O Quarto Mundo de Jack Kirby



“A mistura de gíria e mito, ficção científica e a Bíblia, fez que o Quarto Mundo de Jack Kirby fosse um tanto cerebral demais, mas a sua visão permaneceu”. Essas palavras foram escritas pelo historiador Les Daniels em DC Comics: Sixty Years of the World’s Favorite Comic Book Heroes, de 1995.
Ele estava certo. Toda a meta-série que mais tarde ganhou o nome de Quarto Mundo usou idéias e conceitos que estavam muito a frente de seu tempo. E o legado de dessas idéias permaneceu, permeando o Universo DC como um todo.

Mas esse trabalho de Kirby, que hoje tem o status de cult, não teve uma aceitação imediata. Pelo contrário. Como disse Daniels, era “cerebral” demais. Não encontrou público suficiente para se tornar uma série de sucesso e foi podada sem piedade, não permitindo que Kirby desse a versão definitiva de sua própria história.

As histórias desses novos deuses é operática, com a eterna luta entre o Bem (representado por Nova Gênese) e  o Mal  (Apokolips). O senhor sombrio de Apokolips, Darkseid, busca a “equação anti-vida”, que o permitiria controlar os pensamentos de todas as pessoas. Seu filho, Orion, que foi criado em Nova Gênese, tenta derrotá-lo, em um embate com tons totalmente freudianos. Além de Orion, outros personagens entram no conflito, como o Forever People, que simplesmente é uma versão super-poderosa das gangues adolescentes que apareceram em diversos pontos do trabalho de Kirby. Mister Miracle também está no conflito, nascido em Nova Gênese e criado em Apokolips no lugar de Orion, história contada na belíssima “The Pact”, em New Gods 7 (1971). E até mesmo o Superman e Jimmy Olsen. E a Legião dos Jornaleiros e o Guardião, que foram criações de Joe Simon e do próprio Kirby em 1942.

Kirby criou os Novos Deuses enquanto ainda estava na Marvel e fazia as histórias back-up de cinco páginas publicadas em Thor, chamadas de “Tales of Asgard” e como o nome dizia, mostrava as histórias da mitologia nórdica. Essas histórias foram quase todas escritas pelo próprio Kirby. Esse fascínio pela mitologia fez que ele quisesse dar o passo seguinte, mostrar o Ragnarok e acabar com todo o panteão em Thor. Obviamente, isso não lhe foi permitido. E é claro, Odin (através de Stan Lee) consegue dar um jeito de derrotar Surtur e manter a lucrativa franquia.

É muito claro que os Novos Deuses é a continuação direta de Thor, apesar de tal fato não ter sido admitido oficialmente nem por Kirby nem (como obviamente não poderia deixar de ser) pela Marvel. Mas já na primeira página de New Gods 1, é mostrada uma batalha entre os velhos deuses e é impossível não ver Asgard lá. Na verdade, a página tem a palavra “Epílogo”. O epílogo é de Thor 177 (1970) a penúltima edição de Kirby no título antes de mudar para a DC. 




Em Forever People 5  é mostrado o elmo de Thor, examinado pelo jovem deus Lonar em uma visita a terra dos velhos deuses. É como uma declaração: “Essa é a continuação do que comecei lá... É o queria fazer... Matar os deuses antigos e criar novos”.




Quando ele resolveu sair da Marvel, imagino que o golpe foi grande.  E a DC sabia disso. Logo Jimmy Olsen Superman's Pal  133 (o título que ele aceitou escrever e desenhar em troca dos outros três)  chegava às bancas com um “Kirby is here!” (“Kirby está aqui”) na capa. A expectativa de ver um dos artífices do Universo Marvel que tanto incomodou a companhia na década anterior foi muito grande. E, em minha opinião, aí que estava o problema. Leitores e (principalmente) editores estavam esperando um novo Fantastic Four, algo dentro do que eles estavam acostumados. Kirby lhes deu o Quarto Mundo, uma meta-série que trazia três novos títulos (The New Gods, Forever People e Mister Miracle) e uma renovação enorme em outro que tinha se tornado algo apático (Jimmy Olsen). Uma mistura de cosmogonia, filosofia, religião e muito mais que apenas um aceno para a florescente geração hippie.  Ou como Grant Morrison escreveu na sua introdução para o primeiro Omnibus de Jack Kirby’s Fourth World: “Os dramas de Kirby são encenados em um teatro jungiano  com paisagens de simbolismo cru e fúria...”








Além do conceito de meta-série, várias séries que se sobrepõe para contar uma história maior, outra ideia de Kirby era que o Quarto Mundo era para ser uma série finita. Com começo, meio e fim, que seria publicada durante meses e depois colecionada em um único volume. De certa maneira ele simplesmente previu o advento dos trade paperbacks e uma indústria que hoje se preocupa em criar histórias em seis partes que caibam exatamente no formato.

Como disse, ele não conseguiu ver isso, pois as vendas não alcançaram os patamares estipulados (sejam lá quais tenham sido) e os títulos pereceram.  Foram publicados entre 1970 e 1973, e em 1976 Kirby abandona a DC e volta para a Marvel para uma curta passagem (até 1978).

Não seria o fim, é claro. Os conceitos eram bons demais para serem abandonados. E a DC tentou capitalizar. Ainda que esporadicamente, os personagens do Quarto Mundo apareceram em títulos da editora durante a década de 70. Em 1976, no último número de 1st Issue Special temos “The Return of the New Gods”, de Gerry Conway e Denny O’Neil, com a arte de Mike Vosburg.  E em 1977, a DC lança uma nova série (agora com a arte de Don Newton, continuando a numeração de onde Kirby tinha parado, o número 12). Essa nova série durou oito números, sendo cancelada no número 19 (1978). A história foi concluída em dois números da Adventure Comics (459 e 460).





Mister Miracle apareceu em três números da The Brave and the Bold, em encontros com o Batman e uma vez em DC Comics Presents, com o Superman.  E depois de um hiato de três anos seu título voltaria no número 19 (1977), também continuando a numeração de Kirby, escrito por Steve Englehart e belamente ilustrado por Marshall Rogers. O título foi cancelado no número 25, graças a DC Implosion. Os últimos três números foram escritos por Steve Gerber com a arte de Michael Golden, e a história nunca foi concluída.







No início dos anos 80, os Novos Deuses apareceram em um dos tradicionais encontros da Liga com a Sociedade da Justiça (Justice League of America 183-185), com as duas últimas partes desenhadas por George Pérez que viria assumir o título depois da morte de Dick Dillin. E, é claro, Darkseid é o vilão de “The Great Darkness Saga”, em Legion of Super-heroes 290 a 294.




Em 1984 a DC resolveu republicar os 11 números originais de New Gods, em seis edições em papel baxter, mais luxuoso. Eles chamaram Kirby para fazer as capas duplas e mais uma história para concluir a série. É. Teoricamente seria a sua versão final, o coda para a sua saga. Kirby queria que tanto Darkseid quanto Orion morressem em combate. Obviamente, isso foi vetado. Em seguida Kirby propôs “The Road to Armagetto”, que foi rejeitada também. Kirby então escreveu e desenhou “Even Gods Must Die”, uma nova história de 48 páginas que foi publicada no sexto número da reedição. Na verdade, a história funcionaria como um prólogo para “The Hunger Dogs”, a quarta DC Graphic Novel (1985), que incorporava páginas de “The Road to Armagetto” e nova arte, totalmente remontada. Essa graphic novel sofreu uma pesada interferência editorial. Afinal de contas, os personagens do Quarto Mundo ainda eram interessantes e não poderiam ter uma solução “definitiva” (i.e. a morte dos protagonistas como Kirby queria). O que Kirby desejava fazer em Thor, anos antes, e não lhe foi permitido se repetiu mais uma vez. Com os SEUS personagens.  É impossível não ver a ironia aqui.






O legado do Quarto Mundo de Kirby continuou. Da volta do título dos Novos Deuses no final dos anos 80 e 90 (suas terceira e quartas séries) até a Odisséia Cósmica, de Starlin e Mignola. Byrne escrevendo e desenhando Jack Kirby’s Fourth World, que foi substituído por Orion, de Walt Simonson. Grant Morrison usando profusamente os conceitos em JLA e Seven Soldiers e depois em Final Crisis, que mostra o fim do Quarto Mundo e o início do Quinto, coisa preconizada pelo novo deus  Metron em JLA anos antes no arco "World War III" : “Assim como Nova Gênese é o Quarto Mundo a Terra será o Quinto”.

Morrison, pela boca de Metron, também diz em um arco anterior da mesma JLA, “Rock of Ages”:

“Como você parecem crianças para mim. Como sua compreensão é pequena e ainda assim... Há uma semente em vocês... Os Velhos Deuses morreram e deram origem aos Novos. Os Novos Deuses, até mesmo eu, devem passar quando chegar a nossa hora. Nossa busca foi longa e nossa guerra continua, mas nós encontramos o berço planetário dos Deuses que Virão... Vocês são os seus precursores.”


Então é esse o conceito básico do Quarto Mundo: algo cíclico, embebido do pathos. E Kirby nos deu tudo isso ainda no início da década de setenta do século passado. 


Serviço


A DC lançou quatro Omnibus com todas as histórias do Quarto Mundo de Kirby em ordem de publicação, entre 2007 e 2008, em capa dura.  E entre 2011 e 2012, relançou-os em capa mole. 






sexta-feira, 10 de outubro de 2014

A Saga das Trevas Eternas





Desde que foi criada em 1958 (em Adventure Comics 247) por Otto Binder e Al Plastino para uma aventura com o Superboy, a Legião dos Super-heróis ganhou um culto quase que imediato. Afinal de contas, os leitores podiam se identificar com um grupo de heróis que, apesar de serem super poderosos, tinham a mesma idade que eles. Eram adolescentes, em um “clube” não muito diferente dos tantos que existiam na América dos anos 50.

A Legião é, sem dúvida, um dos mais duradouros legados da Era Weisinger e teve grandes escritores e artistas desde a sua primeira aparição. Um deles foi Paul Levitz, fã de longa data,  que começou a trabalhar no título ainda na primeira metade dos anos setenta e voltou de vez no início dos oitenta, juntamente com o artista Keith Giffen. Eles usaram um novo enfoque no grupo, mostrando muito mais que apenas aventuras heroicas. Eles exploraram como ninguém antes as relações interpessoais e se aprofundaram nos personagens.

É claro, o sucesso de qualquer obra de ficção é fazer que o leitor se preocupe com o personagem que está lendo e Levitz teve isso em mente o tempo todo em que escreveu a Legião. Não é errado, creio, afirmar que a sua versão da Legião dos Super-heróis tem muito da dinâmica das soap operas (novelas). E não uso isso de forma derrogatória.

Na fase do menino prodígio Jim Shooter, nos anos sessenta, apesar de existir uma tênue linha cronológica ligando história a história, você podia iniciar a sua leitura virtualmente em qualquer um de seus números. Parênteses aqui: Mais tarde, quando já era adulto e o poderoso editor-chefe da Marvel, Shooter declarou que qualquer edição seria a primeira para algum leitor. E que tais edições deveriam ser, no mínimo, reader’s friendly. Ele, é claro, tinha uma certa dose de razão, apesar de tal política muitas vezes engessar tanto a história quanto o escritor.

Bem, a Legião de Levitz é TUDO menos isso. Ele fez questão de criar plotlines e arcos que foram se desenvolvendo durante várias edições. A sua Legião parecia sair de um perigo para cair em outro, seguindo a linha de todo quadrinho de super-herói, mas, de novo, com muito sendo mostrado sobre a vida particular dos personagens e as tais relações interpessoais que falei aí em cima.

Um fato importante é que, desde o início dos anos setenta eles já não eram tratados mais como adolescentes, mas sim como jovens adultos. E Levitz usou isso ao máximo.

Um exemplo: o casamento de Lightning Lad e Saturn Girl estava em frangalhos após ela ter ficado presa em um planeta inóspito em uma missão... e ter sido pega em uma posição comprometedora com Timber Wolf. Pega por ninguém menos que Light Lass, sua cunhada E a namorada de Timber Wolf. A ideia de atração e (sim, por que não?) pelo menos o desejo de sexo existia. Não era mais a Legião dos anos sessenta, com certeza.  Tudo isso e uma série de problemas médicos fizeram que Lightning Lad se afastasse do cargo de líder e uma eleição fosse disputada por Element Lad, Ultra Boy e Dream Girl, com a vitória dessa última, considerada a cabeça de vento do grupo. A estrutura interna da Legião estava em frangalhos, pode se dizer.

E é assim que, com todos esses problemas, se inicia o arco mais famoso de Levitz e Giffen no título, “The Great Darkness Saga” (A Saga das Trevas Eternas aqui no Brasil), publicada originalmente em Legion of Super-Heroes vol. 2, #290–294  (1982). Um arco que coloca como antagonista ninguém menos que Darkseid, o über vilão de Jack Kirby. Darkseid estava sumido por cerca de mil anos e quase completamente esquecido. Usando tanto mágica quanto ciência, ele cria clones, versões distorcidas de grandes heróis do passado, como Orion, um Guardião de Ao e até mesmo do Superman. Com poderes aumentados, ele transporta Daxam para onde ficava Apokolips, sob um sol amarelo. Dentro dos cânones da Legião, Daxam é uma colônia perdida de Krypton e isso faz que seus habitantes desenvolvam poderes iguais ao do Superboy. Um exército de bilhões de pessoas super poderosas sob o comando mental de Darkseid. Que, como não poderia deixar de ser, é derrotado no final, por seu maior inimigo... Vindo de Nova Gênese.





Mas devemos contextualizar algo. “The Great Darkness Saga” colocou Darkseid como o grande antagonista do Universo DC. Coisa que antes, bem, não era. Era, para muitas pessoas, mais uma das “excentricidades” de Kirby.







Após o projeto do Quarto Mundo ter sido cancelado, Darkseid voltaria a aparecer em New Gods 13 (1977, continuando a numeração original da série de Kirby). Essa nova (e curta) fase tinha o roteiro de Gerry Conway e os desenhos de Al Milgron e é totalmente esquecível.

Darkseid apareceu ainda em Super-team Family 15 (1978, o último número da série), em Adventure Comics 459-460 (1978) e no arco “Crisis Between Two Earths”, em Justice League of America 183-185 (1980), um dos tradicionais encontros anuais do título com as terras paralelas.

E foi basicamente isso. Ele era um personagem secundário, mais uma das tantas coisas estranhas da DC dos anos setenta. Não havia diferença entre ele, por exemplo, e Brother Power, The Geek. Personagens destinados a habitar o limbo e, de vez em quando, ser espanados e usados.





Com “The Great Darkness Saga”, o potencial enorme de Darkseid foi de novo redescoberto e nos anos seguintes ele foi cada vez mais usado dentro da editora. Afinal de contas, ele era um personagem muito bom para não ser usado. E voltou em uma história paradoxalmente se passando mil anos no futuro. Se a passagem de Levitz e Giffen pela Legião tivesse nos dado apenas isso, já seria um lucro enorme. Mas tem muito mais, muito mais mesmo. Mas esse é um papo para outra hora.



Serviço:

The Great Darkness Saga foi publicada aqui no Brasil duas vezes, primeiro em Superpowers 1 (Editora Abril, 1986) e depois encadernada em 2008 pela Panini.


A DC lançou em 2010 um hard cover da linha De Luxe (em formato maior) e altamente recomendado. 


sexta-feira, 3 de outubro de 2014

À Beira do Abismo, Peter Sanderson

Continuando o artigo do historiador Peter Sanderson sobre o Superman da Era Weisinger. A matéria originalmente foi publicada no número 187 da Amazing Heroes (Janeiro de 1991). 

Mais uma vez, é com você, Pete. 


Parece que recentemente ficou na moda muitas pessoas condenarem as aventuras clássicas dos super-heróis das décadas passadas.

Em muitos casos, creio, esses críticos de hoje estão cometendo o erro de julgar as histórias inteiramente pelos padrões modernos do gênero, o qual deriva basicamente da Revolução Marvel dos anos sessenta. Apesar de parecer difícil para a maioria dos leitores acreditar, já que atualmente a Marvel é considerada criticamente conservadora e até mesmo enfadonha ou reacionária, na década de sessenta ela estava na vanguarda do gênero, dando aos super-heróis, antigamente unidimensionais, uma nova profundidade.  Foi a partir dessa mesma década de 1960 que a tendência dominante nos quadrinhos de super-heróis foi deixar as caracterizações mais realísticas.

Então, é daí que vem a ideia de hoje em dia das histórias de super-herói apresentarem o seu protagonista como uma pessoa muito parecida com nós mesmos, completo com todas as fraquezas e defeitos possíveis, que apenas por acaso tem super-poderes. Ao invés de usarem ternos e ir trabalhar em seus escritórios, esses personagens colocam uniformes e vão combater o crime. E o público em geral não acha que eles são grande coisa, ou pelo menos os consideram como qualquer celebridade que possa aparecer na revista People.

As histórias mais memoráveis do Superman do início dos anos sessenta, entretanto, enfocam o conceito do super-herói de uma perspectiva que é, ao mesmo tempo, a mesma e ainda assim muito diferente. Elas não pretendiam dar qualquer verossimilhança ao personagem principal, mas sim o mostrar como um mítico representante de um código moral. Se as histórias de super-heróis de hoje, em seu pior, se transformaram em novelas medíocres, as do início dos anos sessenta aproximavam-se do status de alegorias morais.

Por um lado, o  Superman da Era de Weisinger é a figura de um homem comum, que cresceu em uma arquetípica cidadezinha americana, teve pais adotivos que pareciam ter saído de um quadro de Norman Rockwell e tinha até mesmo o seu cãozinho (apesar de ser um cachorro que também veio de Krypton). Ele possui todas as virtudes que os americanos tradicionalmente associam com seus heróis: coragem, patriotismo, lealdade, idealismo e uma devoção total a seus amigos e seres amados. Não há nada particularmente “alienígena” nele: Krypton poderia ser um país estrangeiro do qual ele imigrou para a América e não um planeta distante. E já que ele é um personagem ficcional, ele pode ser apresentado completamente sem defeitos.

Por outro lado, o Superman também é apresentado como uma figura heroica de proporções míticas, cuja nobreza e outras virtudes, além de seus grandes poderes, o fazem virtualmente um semideus caminhando entre heróis comuns. Todos o respeitam, o tem como modelo e o tratam com  reverência; não existem cenas como as que são comuns nos quadrinhos de hoje, nas quais a polícia, representantes do governo ou até mesmo pessoas comuns se recusam a fazer o que diz o herói, o criticam ou mesmo o ameaçam com prisão.

Então, o Superman é ao mesmo tempo normal e um semideus. Sua identidade dupla como o humano total Clark Kent é como o poderoso Homem de Aço reforça esse tema. Mas apesar de sua origem, o Superman não é um deus que desceu a Terra em forma humana, como uma das várias divindades em muitas tradições religiosas, mas sim um humano que foi elevado a tal divindade. (Afinal, ele não tinha poderes em Krypton e só veio a desenvolvê-los na Terra).  O resultado é que o Superman se transforma em uma figura simbólica que representa o ápice do potencial humano, o herói americano primitivo, poderoso tanto física quanto moralmente.

É claro, a maioria das histórias do Superman em seu primeiro quarto de século de publicação nem tocou nesse conceito e se contentou em colocá-lo enfrentando ameaças em histórias simples do bem contra o mal, nas quais o status quo benigno é restaurado no final, graças aos esforços do Superman. Mas como eu coloquei anteriormente, pelo início dos anos sessenta os escritores e editores se encontravam na posição de ter que chegar até o limite de suas convenções nas histórias do Superman para manter o seu frescor criativo.

Uma das maneiras que eles acharam foi alterar o status quo de maneiras radicais. Então, em “Superman Red and Superman Blue”( o assunto de nossa coluna anterior), eles mostraram o que aconteceria se o Superman usasse os seus poderes até o limite e transformasse o mundo em uma utopia. Ela foi designada como uma “história imaginária” que poderia ou não acontecer em qualquer tempo no futuro dentro do universo ficcional do Superman. Ou seja, as  séries Superman como um todo mostravam um mundo que estava a beira de se tornar um paraíso terrestre através dos esforços da humanidade em seu melhor, representada pelo Superman.

Mais freqüentemente, entretanto, as histórias imaginárias desse período eram muito mais assustadoras, mostrando possíveis mudanças de eventos que poderiam levara a catástrofe total. A mais famosa e celebrada destas histórias é “The Death of Superman”, originalmente publicada em Superman 149 (Novembro de 1961 e recentemente reimpressa  em The Greatest Superman Stories Ever Told), na qual Lex Luthor finge ter se regenerado e então traí e assassina o Superman. Um aspecto de “The Death of Superman” que se destaca, especialmente hoje, é o grau que tanto o Superman quanto Luthor são apresentados como figuras maiores que a própria vida.






As cerimônias do funeral do Superman (com o seu corpo a mostra em uma redoma enquanto procissões passavam por ele) me lembram daquelas que aconteceram no assassinato de Kennedy, apesar da historia ter sido publicada dois anos antes do evento. Possivelmente tais cerimônias fúnebres do Superman foram inspiradas pelas de grandes figuras que haviam morrido no nosso mundo. É a morte do Grande Homem, um herói. Similarmente, o julgamento de Luthor em Kandor é explicitamentente ligado ao julgamento do criminoso de guerra nazista Adolf Eichmman, tanto nas palavras quanto na imagem do acusado colocado dentro de uma caixa de vidro.

Então, “The Death of Superman” surge como uma tentativa de traduzir as emoções cercando fatos verdadeiros daquela época em uma fábula no gênero dos super-heróis, o qual pela sua própria natureza lida com heroísmo e vilania, crime e castigo em uma escala mítica.

 “The Death of Superman” tenta restaurar um status quo pacífico para o mundo com a Supergirl tomando o lugar do Superman como protetora da Terra e levar Luthor para ser julgado por seu crime. Apesar disso, no final da história, o sentimento que fica é que o mundo ficou um lugar pior devido à morte do Superman, que o tempo de grandeza havia irremediavelmente passado. E como é dito no início dessa fábula,  tais eventos “podem ser que nunca aconteçam... Mas ainda assim são possíveis”.  E tudo na história vem do status quo normal, seguindo uma seqüência lógica dentro do Universo do Superman da época. A mensagem que fica é que apesar do status quo ser extremamente estável, ele poderia mudar de uma hora para outra. O mundo está a beira de um abismo no qual ele pode despencar por um mero capricho do destino.


As “histórias imaginárias” poderiam mostrar quedas irreversíveis, mas a catástrofe freqüentemente chegava muito perto, mesmo dentro da continuidade padrão. E é nessas histórias que existem as mais interessantes explorações do Superman do período porque elas mostram o que acontece a esse Homem Comum (ainda que super poderoso) para o qual todas as coisas são possíveis, quando os apoios de sua existência segura são tirados debaixo de seus pés.

O Superman desse período, me parece, também é o representante de um ser humano levando uma vida feliz e estável. Ele pode controlar qualquer situação que apareça. O que acontece então, se circunstâncias deixam sua vida de cabeça para baixo, deixando-o impossibilitado de manipulá-la ou muito menos restaurar a ordem?  Como ele reage? E se é a sua mente ou corpo que de alguma forma se voltam contra ele, colocando-o em um perigo possivelmente inescapável?

Em tais histórias, para mim, o Superman se torna o símbolo do Homem Comum, lutando não contra super-vilões ou ameaças alienígenas, mas sim contra as fontes de medo que existem em uma existência cotidiana, medos que incluem a sua confusão com a sua identidade pessoal, a tentação de sua capacidade para o mal, a loucura e a própria moralidade. De fato, algumas dessas histórias pegam a quintessência do herói de aventura e prendem esse herói dentro de uma história de horror, observando como ele se debate para ficar livre.

Uma das mais impressionantes destas histórias e aquela publicada em duas partes, “Superman, King of Earth” e “King Superman versus Clark Kent, Metallo”, em Action Comics 311 e 312 (Março e Abril de 1964). Assim como em Hulk, na Marvel, essas histórias trabalham com o padrão de identidade dupla comum as histórias de super-heróis, mas usando os conceitos de Doctor Jeckyll and Mister Hyde. Nessa visão, Clark Kent pode ser visto como a parte humana que mantém o tremendo poder do Superman sob controle.





Na história o equilíbrio é quebrado. Graças a exposição a Kriptonita Vermelha, Clark é separado fisicamente do Superman, que aparentemente se torna uma criatura do id totalmente sem amarras (A Kriptonita Vermelha nas histórias do começo dos anos sessenta era virtualmente a encarnação do destino imprevisível, proporcionando mudanças terríveis contras as quais ele é impotente... E então trazendo-o de volta ao normal sem qualquer ação por parte dele).

O Superman toma de assalto o mundo todo, conquistando-o, usando uma coroa de jóias, construindo um enorme palácio e obrigando os líderes do mundo a prestar-lhe homenagens. Clark então organiza um grupo de resistência para “derrubar” o seu eu maligno do  poder.




Para mim, a cena mais chocante dessa história é quando Clark é forçado a fingir que é o Superman para evitar a captura pela polícia. Para ter certeza que esse “Superman” não era um impostor, um policial dispara contra Clark, que bravamente esconde a sua dor agonizante e assim mantém o disfarce. Ferido mortalmente, Kent pede para ser transformado em uma versão do velho inimigo do Superman, Metallo, um ciborgue que tem como fonte de força a radiação da kriptonita. Dessa forma ele pode continuar a sua luta contra a sua contraparte maligna. Na verdade, Kent está tão disposto a parar o seu outro eu que ele se transforma em um monstro por vontade própria. Um mostro que é, literalmente, mais máquina inumana que homem, com todas as suas esperanças por uma vida normal destruídas.

Como Metallo, Kent é a encarnação da morte, mais morto que vivo ele próprio, carregando explosivos e tendo como fonte de força o único elemento que pode matar o Superman. Mais ainda, apesar do “pacato e gentil” Clark Kent ter sido sempre um papel que ele  representava, Kent era na verdade o seu verdadeiro eu no dia a dia, com exceção da timidez fingida. Ou seja, ele era um homem de elevada moralidade e temperamento calmo. Mas ele se torna virtualmente irreconhecível em seu afã para impedir seu inimigo, mesmo que isso signifique matá-lo. Tenha em mente que naquela época o Superman/Clark Kent era caracterizado pela sua absoluta determinação de nunca matar nenhum ser vivo. Curiosamente ele incorpora algumas das mesmas características implacáveis do Superman, mas para poder destruí-lo.

Kent é vitorioso em seu confronto com o Superman, mas a vitória tem um custo enorme para ambos: o Superman morrerá e Kent deve passar por uma morte em vida.





Quando estava quase morrendo, o Superman admite para Kent que tudo aquilo tinha sido um embuste e ele nunca tinha se tornado mau, afinal de contas. O Superman havia fingido se tornar um tirano com a permissão dos líderes mundiais para esconder a verdadeira ameaça a Terra, uma invasão alienígena. Desta forma, o Superman havia anunciado os atos de destruição perpetrados pelos alienígenas  como se fossem parte de sua própria campanha para dominar o mundo. Ouvindo isso Clark desliga os raios mortíferos da kriptonita e assim para também a sua própria degeneração moral que o havia transformado em um assassino. Quase imediatamente os efeitos da Kriptonita Vermelha cessam e isso faz que o Suoerman e Clark Kent se unam novamente em um único ser. O Superman derrota os alienígenas e tudo volta ao normal.

Isso parece muito fácil, não é? Em um nível literal a história parece, pelo menos para mim, perder totalmente a graça quando é revelado que a vilania do Superman era apenas um plano. Mas mesmo assim, a conclusão tem certo sentido se você considerar Clark o responsável pela re-emergência do verdadeiro e vitorioso Superman quando ele “mata” o Superman  “mau” e depois se contém, já no limite da maldade ele próprio, se recusando a matar o Superman “bom”. Com Clark e o Superman de volta para o lado do bem, e provado que são iguais em uma batalha, faz sentido que eles voltassem a ser uma pessoa. A divisão foi resolvida.

O dilema de uma aparente divisão entre o Superman e Clark Kent é revisitado em “Clark Kent’s Incredible Delusion”, em Superman 174 (janeiro de 1965). Essa história começa com um homem chamado Adam Newman  entrando no escritório de Clark Kent e revelando ser o Superman, inclusive com os super-poderes. Clark em seguida descobre que ele perdeu os seus poderes, que não consegue achar o seu uniforme e que, na verdade, não existe evidência em lugar nenhum que algum dia ele foi o Superman. Ele acaba duvidando de sua própria sanidade, pensando se ele meramente havia imaginado a sua vida como o Superman.



Não sendo mais capaz de confiar em sua própria percepção da realidade é terrível, mas ainda há mais nesse pesadelo particular. Há também o medo da traição, já que até mesmo o Batman e Krypto parecem abandonar Clark.

Existe outro aspecto no dilema de Clark que só funciona com eficácia no gênero dos super-heróis e suas duplas identidades. Clark consulta um psiquiatra que pergunta sobre a sua adolescência e conclui: “Você era tímido, introvertido, levando uma vida enfadonha. Nada mais natural que você invejasse o glamoroso e heróico Superboy! Minha teoria é que você começou a sonhar que você era o Superboy para aplacar o seu próprio complexo de inferioridade!”

O diagnóstico do psiquiatra descreve bem o apelo que o Superman tem nos seus leitores. E Clark Kent descobre que tudo o que ele achava que era especial sobre si mesmo, que o distinguia das outras pessoas e o fazia ser admirado, nunca existiu. Ele se encontra preso em sua vidinha comum, em sua própria mediocridade. Que foi só o que restou a ele. E esse talvez seja o grande horror da história.

Mas logo que Clark chega ao fundo do poço e aceita que sua vida como Superman foi apenas uma ilusão, a normalidade volta à tona. Mortalmente ferido, Adam Newman confessa que ele era apenas uma androide que tentou roubar a identidade do Superman e para isso se valeu de uma quantidade enorme de truques para fazer que Clark duvidasse de sua própria sanidade. E eles trocam de posições: Clark ganha seus poderes novamente e Newman torna-se a não-entidade, perdendo a identidade que havia roubado e até mesmo a sua própria existência.

E ainda existem outras. Em “The Nightmare Ordeal of Superman” em Superman 171 (Agosto de 1964), o Superman se encontra preso em um mundo primitivo cujo sol vermelho tira os seus poderes sobre-humanos. Ele é reduzido à mera humanidade e desamparo total. Como para simbolizar tudo isso, o próximo desastre a cair sobre ele é que ele é vencido por um nativo selvagem que toma o seu uniforme, símbolo de sua identidade super-humana. O selvagem começa a vestir o uniforme, trocando os papéis com o Superman, que fica com os trajes do homem das cavernas. O usurpador então humilha o ex-Superman em uma luta e ele acaba em uma caverna, com uma febre que faz que ele delire, então tirando dele até mesmo a capacidade de pensar coerentemente.




Mais uma vez o Superman é resgatado, mas não por seus próprios esforços: uma equipe da Terra aterrissa no planeta e o encontra. Um toque aparentemente absurdo na história é que o Superman fica com seus óculos de Clark Kent e os usa contra as tempestades de areia do planeta, mas no final da história ele estava fraco demais para até mesmo tirá-los e ficou com medo de quem viesse socorrê-lo descobrisse a sua identidade secreta. Isso parece bem ridículo em uma primeira leitura, mas faz muito sentido simbolicamente, já que para o Superman ser exposto como Clark Kent o reduziria a mera “humanidade”, despindo-o da capacidade de transcendência, o mesmo pesadelo que o assombrou durante toda a história “The Incredible Delusion”.

Se você ler o suficiente dessas histórias logo vai perceber que o Superman vai ser resgatado do abismo em cima da hora. Mas há uma história que se destaca porque a fuga do Superman é claramente não definitiva. A história é “The Old Man of Metropolis”, que foi reimpresso em 80-Page Giant 1 (e originalmente em Action Comics 270, 1960). O Superman é aparentemente projetado no futuro e se encontra de cabelos brancos e idoso e seus super-poderes se foram graças a contínua exposição à kriptonita. Mas isso é meramente uma metáfora para o declínio físico que vem com a idade avançada. E já que os poderes do Superman se foram, ele não pode mais reverter o processo de envelhecimento voltando no tempo. Assim como todos nós.





É difícil dizer exatamente quando no futuro essa história se passa. A Supergirl agora é a Super-mulher adulta e ela ainda parece jovem, mas Jimmy Olsen parece ter cerca de quarenta e tantos anos (e aprece não ter envelhecido bem). Então todos os outros estão aparentemente na casa dos sessenta, mas eles parecem muito mais velhos. Olhando para essa história em 1990 nos dá alguns insights divertidos, já que agora teoricamente estamos vivendo na era futura que é mostrada na história, e o futuro de hoje não aprece nem um pouco com o mundo no estilo de Buck Rogers mostrado.

É uma história sobre os horrores da velhice e mortalidade que me assustou muito quando eu a li pela primeira vez na metade dos anos sessenta. Virtualmente tudo que acontece ao Superman na história acontece com uma pessoa normal. A imagem de um Superman envelhecido, em seu uniforme, sofrendo, dramatiza de forma precisa o abismo entre a vitalidade da juventude e a fragilidade da velhice. Ainda mais, a súbita mudança do Superman através do tempo mostra o dilema do envelhecimento – ele pode não ter mudado muito em termos de personalidade e espírito durante os anos, mas de qualquer forma ele se encontra preso em um corpo em declínio.




O Superman havia sido esquecido pelas gerações mais novas que surgiram depois que ele deixou de estar em sua melhor forma. A jovem Supergirl o tinha superado nos seus papéis de super-herói e repórter. Velhos amigos haviam morrido (Perry White) ou tinham diferentes estilos de vida (Lana Lang). Graças aos avanços da ciência e mudanças na moda e arquitetura, assim como o envelhecimento de seus amigos e parentes, o mundo ao redor do Superman parece inteiramente alienígena para ele. Mesmo o que antes era certeza absoluta, não mais existia. Lex Luthor, por exemplo, tinha se regenerado e era o prefeito de Metropolis!

Uma das imagens mais chocantes é, apesar de parecer tola e um tanto absurda, é um envelhecido Krypto sendo levado pela carrocinha, aparentemente para ser sacrificado. Apesar de alguns antigos companheiros, como Jimmy Olsen, serem gentis com o Superman, apenas a igualmente envelhecida Lois (que ele encontra no final da história) parece ter alguma simpatia e afeição verdadeira por ele. Até mesmo a Supergirl, sua prima, é inconscientemente insensível, até mesmo explorando o Superman por conta de uma matéria.

Nesse caso a normalidade é restaurada pelo simples procedimento de fazer o Superman acordar e descobrir que tudo não passava de um sonho. Mas é claro, isso não significa que o Superman – e seus leitores – nunca ficaria velho e eles serão poupados desse destino. A história termina com o Superman mandando flores para Lois e um Clark comentando que talvez o Superman quisesse evitar ficar sozinho em sua velhice. Os quadros finais da história dão um final feliz, mas a sombra da visão apresentada nas páginas anteriores não é fácil de ser esquecida.

Olhem quantas vezes o Superman não triunfa de verdade sobre as forças que o atacam. A vida do Superman como um velho sem poderes foi tudo um sonho; os efeitos da Kriptonita Vermelha se dissiparam; Adam Newman muda de idéia e revela a verdade.

O padrão mítico está incompleto. Nessas histórias o Superman é apenas um peão do destino, que o transforma em vítima e depois faz tudo voltar ao normal. Ele não pode se salvar ou vender as forças contra ele, a melhor coisa que ele pode fazer é sobreviver e esperar que a roda da fortuna gire mais uma vez ao seu favor. Mas a força da aventura de fantasia heroica reside no herói ativamente derrotar a adversidade, não meramente escapar dela. Não é surpresa então que a Marvel cresceu rapidamente em popularidade nos anos seguintes. Os seus personagens também sofriam desses problemas e infortúnios, mas transcendiam as circunstâncias através de suas lutas, dinamicamente orquestradas, contra seus adversários. Lutas que se transformavam em triunfantes vitórias.

A revolução Marvel dos anos sessenta pode ser mais bem lembrada pelas mudanças que ela fez na caracterização, mas ela foi importante também para re-energizar o apelo que existia nas aventuras dos super-heróis. Triunfar sobre o desespero e não se render a ele.