Prata e Bronze

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

The Brave and The Bold





O nome The Brave and the Bold, dentro da DC Comics se tornou o sinônimo de encontros (team-ups) de Batman e outro personagem da casa. Mas pouca gente sabe que B&B é um título muito mais antigo, que tem alguns eventos históricos dentro de seu run de 200 números. Foi nele que surgiram a Liga da Justiça da América (número 28, 1960) e a Turma Titã (54, 1964)  e a volta de Hawkman (34, 1961). Foi nele que Neal Adams começou a transformar o Batman, depois de uma fase camp gerada pelo sucesso da série com Adam West em 1966 em um personagem mais sombrio.  E foi também em B&B que Jim Aparo, um dos artistas mais associados com o Homem-Morcego, começou a desenhar o Batman.

E The Brave and the Bold pode também, foi durante um tempo,  um título de “entrada” para personagens mais obscuros, assim como a Showcase,  outro mítico título da editora.  Além disso, muitos personagens que haviam perdido seus títulos puderam encontrar refugio nas suas páginas.

O Início

Mas, ainda antes de tudo isso, ela foi uma revista de aventuras “históricas”, aos moldes da Valor, da EC Comics que havia surgido no início de 1955, meses antes do primeiro número da B&B. Três personagens faziam parte da B&B, a antologia: Príncipe Viking (ilustrado por  Joe Kubert), Silent Knight (Irv Novick) e Golden Gladiator (Russ Heath) . Golden Gladiator logo foi substituído por Robin Hood (ilustrado por Russ Heath).





Bob Kanigher era o editor de B&B nesse início do título, assim como o seu escritor principal.  Mas algumas histórias foram escritas por Bill Finger, France Herron e Bob Haney, que depois ficaria muito associado ao título.

Intermezzo

Enquanto isso, no final dos anos 50, a já citada Showcase estava sendo usada como um título teste e havia trazido de voltas novas versões da Era de Ouro, como o Flash e o Lanterna Verde. Então, em 1959, a partir do número 25, a B&B deu uma guinada e começou a imitar a Showcase e tentar um novo sucesso. Suicide Squad foi o primeiro, um título de guerra e espionagem de Kanigher, que depois de lacônicos três números (e mais uma tentativa em 1961) foi esquecido... Quando voltou na década de oitenta o conceito era bem diferente.  O primeiro acerto veio logo em seguida, no número 28 (1960) com a estréia da Liga da Justiça da América, de Gardner Fox e Mike Sekowsky, que ficou três números em B&B e ganhou título próprio.




Kanigher tentou novamente, com a criação de Cave Carson (número 31, 1960). Assim como aconteceu com Suicide Squad, logo desistiram do personagem (apesar de ter mais uma chance de dois números, em 1962. Outro sucesso no número 34, com a volta de Hawkman, de Garner Fox e Joe Kubert.  Três números consecutivos e depois a sua volta para mais três (42-44) antes de ganhar título próprio.





Mas apesar os sucessos com a Liga da Justiça e Hawkman, estava longe de ser a Showcase. E foi percebido que a editora não comportava dois títulos assim.

O editor Julius Schwartz então criou uma série dentro de The Brave and the Bold: Strange Sports Stories, que durou entre os números 45 e 49.Uma antologia bizarra que, como diz o nome, mostrava esportes estranhos, que iam desde times de baseball invisíveis a boxeadores fantasmas.




Foi também Schwartz que veio com a próxima ideia: encontros entre os super-heróis da casa. Ideia mais tarde copiada pela Marvel ( Marvel Team-Up e Marvel Two-in-One) e a própria DC (DC Comics Presents).

Mas,por incrível que pareça, o primeiro encontro não tinha o Batman.

A Era dos Team-Ups

O primeiro encontro de dois heróis em The Brave and the Bold foi nesse número 50, entre o Arqueiro Verde e o Caçador de Marte, inclusive com algo que veio se tornar a marca registrada da série: os logotipos dos dois heróis colocados lado a lado na capa.


Hoje, parcerias de heróis são algo extremamente comum, mas na época que essa B&B foi publicada era algo raro. Na Era de Ouro tivemos lutas entre super-heróis, como Namor contra o Tocha Humana. Ou  a Sociedade da Justiça, Os Sete Soldados da Vitória e os Jovens Aliados. Mas todos esses eram grupos. A exceção era World’s Finest, que tinha Superman e Batman. Mas mesmo World’s Finest era uma parceria contínua. Heróis diferentes a cada número é um conceito iniciado por The Brave and the Bold.

Uma coisa deve ser entendida. Por mais estranho que pareça falar isso nos dias de hoje, na época os personagens e títulos eram estanques. Fora de Justice League of America, parecia que os heróis da DC nem mesmo viviam em um mesmo universo. Quando B&B trouxe dois heróis distintos em uma mesma aventura foi algo totalmente novo.

É de se estranhar a escolha desses dois heróis para o primeiro team-up. Não eram, de forma alguma, pesos-pesados. A impressão que tenho é que eles estavam testando o mercado. Mas se foi realmente isso, já no próximo número (51) eles começaram a colocar os personagens mais conhecidos. Ao contrário dos do número anterior, Aquaman tinha seu título próprio na época e Hawkman estava em vias de ganhar o seu.



E aí se iniciou uma tendência, que mais tarde seria o mote da série com o Batman: os números subsequentes tinham sempre um herói com um título próprio. Assim, os  mais conhecidos (Flash, Mulher Maravilha) se encontravam com outros de não tanta relevância (Supergirl, Eclipso). Era como se o editor pensasse: “o leitor compra por Batman, mas damos a ele o Espectro. Isso pode gerar interesse e fazer que esse leitor busque mais histórias desse último”.

Quando os team-ups se iniciaram, B&B teve vários editores. Os primeiros cinco números tiveram edição de George Kashdan e Murray Boltinoff (com exceção de do número 52, com os heróis de guerra, editado por Kanigher). E Kashdan logo começaria a editar o título sozinho.



Uma miríade de artistas passou por B&B no período: Murphy Anderson, Alex Toth, Bruno Premiani, Ramona Fradon, Joe Kubert, Win Mortimer, entre tantos outros. Era impossível saber quem seria o próximo artista em B&B. A única certeza é que ele seria escrito por Bob Haney.




Haney começou na DC ainda no final dos anos 50, vindo de vários trabalhos para editoras como a Fawcett,Quality, Dell e Harvey. Na DC, ele trabalhou inicialmente nos títulos de guerra, tendo escrito histórias para a Star Spangled War Stories, All-American Man of War, Blackhawk e até mesmo Tomahawk (que tinha como tema a guerra da independência). Também havia escrito vários números de Aquaman, além de co-criar (com Arnold Drake e Bruno Premiani) Doom Patrol e Metamorfo (com a artista Ramona Fradon).




(Bob Haney, por Jim Aparo)






Aliás, Metamorfo foi responsável por interromper os team-ups, com dois números (57 e 58) apresentando o personagem.






Com a Batmania em alta (graças ao seriado) o personagem ganhou uma seqüência de aparições no título, antevendo o formato que ele adquiriria: uma revista de encontros de Batman com outro personagem da casa. 




Entra Neal Adams

The Brave and the Bold  foi o primeiro trabalho de Adams para o Batman. Neal Adams tinha feito pouca coisa nos quadrinhos, mas seu belíssimo trabalho em Ben Casey (uma tira de jornal inspirada na série de TV) logo fez que ele fosse percebido. Ele começou a trabalhar em The Spectre (que logo abandonou) e Strange Adventures (com Deadman, ou O Desafiador, no Brasil).

Em uma entrevista ao podcast de Kevin Smith, Fatman on Batman, Adams conta que ele queria desenhar o Batman. Então ele foi a Julius Schwartz e pediu para desenhar o título. Schwartz negou, já que ele tinha abandonado The Spectre (editado pelo próprio Schwartz) e trocado por Deadman, que tinha a edição de Jack Miller. Apesar de fazer algumas capas para a B&B, ele queria mesmo era fazer a arte interna. Então, ele conversou com Murray Boltinoff e pediu para fazer uma história, coisa que foi imediatamente aceita pelo editor.

No número 79 (1968), o início da colaboração de Adams e Haney tem em B&B tem Batman e (é claro), Deadman.



Adams já entrou com o pé na porta: alongou as orelhas do capuz de Batman e fez que a sua capa ficasse maior e mais esvoaçante, lembrando apropriadamente asas de morcego. E ele não dava muita bola para o roteiro de Haney. Se estivesse escrito “dia”, ele colocava a cena a noite, onde ele achava (com razão) que o personagem pertencia. Haney era inteligente o suficiente para perceber que essas mudanças eram obviamente para melhor, e começou a escrever histórias cada vez mais sombrias. Uma coisa deve ser dita sobre Haney: ele sabia aproveitar os artistas que ilustravam suas histórias.
A colaboração de Adams para a B&B se encerrou no número 86 (apesar dele ter voltado no número 93 para desenhar um script de Denny O’Neil, colocando Batman na Casa dos Mistérios).








Em sua curta estada em B&B, ele deixou uma marca indelével no título. Inclusive ele foi o responsável pelo novo visual do Arqueiro Verde, no número 85 (1969). A razão para Adams ter saído de B&B é simples: Schwartz percebeu que o melhor Batman da editora não estava nem em Batman nem em Detective Comics. Ele não pensou duas vezes e colocou Adams no título principal, onde ele começou o maravilhoso run com Denny O’Neil. Mas essa é, literalmente, outra história. 




Cronologia? Pra que cronologia?

Uma das coisas que Haney nunca respeitou em The Brave and  the Bold foi a cronologia. Bem, para sermos justos, a ideia cronológica quase que anal-retentiva surgiu para valer mesmo com o nascimento do Universo Marvel, em Fantastic Four 1, portanto ainda era muito recente na época e a DC ainda não havia sucumbido a ela. Sendo um escritor “as antigas”, partidário do “se a cronologia atrapalha uma boa história, ao diabo com a cronologia”.

Isso fica muito claro no número 84, em “The Angel, the Rock and the Cowl”, que mostra o Batman dos anos sessenta e o herói da Segunda Guerra Mundial, o Sargento Rock. Haney mostra um jovem Bruce Wayne em seus primeiros dias como o Batman, ajudando Rock e a Companhia Moleza  em uma missão. Então, no momento em que a história começa, no tempo presente (final da década de sessenta), o Batman já teria quase cinqüenta anos. Considerando que a DC no período havia congelado tanto o Batman quanto o Superman nos seus eternos trinta anos, é um anacronismo, para dizer o mínimo.




E não foi só isso. Wildcat, um herói da Terra-2, apareceu no número 88 em uma história que teoricamente se passa na Terra-1. E como Haney gostava do personagem, ele apareceu ainda em quatro (!) outras edições, criando mais confusão. Logo os fãs começaram a dizer que as histórias de B&B se passavam em outra Terra, a Terra-“B”. O “B” pode ser de “Boltinoff”, “Bob” (Haney) ou “Brave and Bold”. Ou todos eles.




Apesar disso, várias das histórias de Haney tiveram repercussões fora de B&B. Por exemplo, além da já citada mudança de visual do Arqueiro Verde, tem Bruce Wayne encontrando o irmão de Joe Chill, o homem que havia matado seus pais (no número 79, aquele primeiro de Adams). 



Jim Aparo, o artista supremo de The Brave and the Bold

Em 1970, Murray Boltinoff colocou um novo artista no título para substituir Adams, Nick Cardy. Cardy já havia trabalhado com Haney em Aquaman e Teen Titans. Ele fez os números 91, 92 e 94 a 96. A fase de Cardy é extremamente apreciada pela maioria dos leitores. Ele mais uma vez reduziu as orelhas e capa de Batman, mas o seu estilo combinou com os roteiros urbanos de Haney. E seu talento para desenhar mulheres foi aproveitado pelo escritor.






Cardy saiu do título em 1971, deixando Boltinoff mais uma vez atrás de um desenhista fixo para B&B. E a resposta estava bem de baixo do seu nariz.

Jim Aparo começou a trabalhar na DC no final dos anos sessenta, vindo da Charlton (onde havia desenhado inclusive The Phantom). Ele fez um longo arco de Aquaman, envolvendo o desaparecimento de Mera, a esposa do senhor dos mares. Ao mesmo tempo, ele fazia The Phantom Stranger.

Então, quando o personagem fez uma aparição no número 98 (1971), Boltinoff o chamou para desenhar a história.



Aparo nunca havia desenhado o Batman antes, mas quando o fez foi espetacular. O seu Batman era definitivamente  mais esbelto que o de Cardy e se aproximava do de Adams, o qual injustamente foi acusado de ser um clone. Nada mais longe disso. Ele tinha um estilo próprio e totalmente reconhecível. Ele conseguia retratar os personagens da DC de uma maneira primorosa, e mesmo aqueles que tinham uma forte identidade visual com seus criadores e/ou artistas principais, como o Flash (de Carmino Infantino), Kamandi, Etrigan ou Mr Miracle (de Jack Kirby) ficavam maravilhosos em seu traço.





Seu storytelling era cinematográfico, com movimentos e cortes de câmera extremamente dinâmicos. Além disso, ele fazia a sua própria arte-final e letreiramento (inclusive as onomatopéias).
Bob Brown voltou com B&B 99. Mas Boltinoff, como não poderia deixar de ser, ficou encantado com o trabalho de Aparo. E então, no centésimo número, ele e Haney começaram uma das mais duradouras parcerias dos quadrinhos. E o artista, que preferia trabalhos mais low profile foi catapultado para a posição de artista principal do título do Batman que mais vendia no momento.
Mais uma vez, Haney mudou a sua versão do Batman. Desde que O’Neil e Adams tinham o deixado mais sombrio, esse era o tom. Apesar do Batman de Haney não ser uma versão em papel de Adam West, ele não era sério (ou sombrio) demais. Haney, parece-me, entendia que a mídia não podia ser totalmente voltada para adultos. Ou crianças.





Além disso, o seu Batman era, como descrito por um crítico, um “James Bond de capuz” nesse período Haney/Aparo. Ele viajava pelo mundo e lutava contra terroristas, cientistas loucos, espiões, seqüestradores e, por que não, demônios, sacerdotes vudu e super-vilões. O senso de entretenimento nunca foi tão grande quanto naquelas histórias de Batman em B&B, não importando se ele estivesse em Gotham, Timbuctu ou no espaço.



E, é claro, mais uma vez Haney estava se lixando para a continuidade, se importando apenas com a história.

Por exemplo, em B&B 106, Oliver Queen, o alter ego do Arqueiro Verde é mostrado como um milionário. Mas já tinha sido mostrado nas páginas de Justice League of America e Green Lantern que ele havia perdido a sua fortuna.

E no número 124, possivelmente a mais estranha de todas as histórias. Batman e o Sargento Rock encontram... Jim Aparo. A quarta parede é quebrada em uma das mais marcantes histórias de todo os 200 números de B&B. 









É claro, isso gerava cartas de fãs irados, mas Haney era apoiado totalmente por Boltinoff. Afinal, ele sabia que o título vendia bem por causa de (ainda que não só por isso) da parceria Haney/Aparo.

Descansando à sombra de louros

Pelo número 128, o título não estava tão bem das pernas, já que tanto Haney quanto Boltinoff começaram a usar team-ups apenas de personagens mais familiares. O Arqueiro Verde apareceu várias vezes (não é a toa que na série animada ele é um personagem constante). O mesmo ocorreu com o Wildcat, o Coringa e o Sargento Rock. Boltinoff então foi substituído por Denny O’Neil no número 132, mas sua passagem foi curta, saindo no 139. Ele foi substituído por Paul Levitz.









Levitz era o editor dos outros bat-títulos, Batman e Detective Comics. Era de se esperar que ele trouxesse o Batman de B&B para mais próximo dos que editava. Mas em sua primeira declaração como editor, ele disse que “Haney e Aparo só sairiam do título “sobre o meu cadáver”.

De qualquer forma, ele re-energizou o título. Os números 142 e 143 (1978) mostraram uma história em duas partes, com convidados diferentes em cada um deles (Aquaman e Creeper, respectivamente). Além disso, O Alvo Humano, de Len Wein e Dick Giordano (que antes eera publicado na Action Comics) começou a aparecer em back-ups no título, antes de migrar para a Detective Comics.





No número 145, The Brave and Bold passou a ser mensal. E no número 150, uma edição especial, nós temos “Batman e...?” em uma tentativa de fazer o leitor tentar descobrir quem era o convidado, que acaba sendo o Superman, velho parceiro da World’s Finest, em sua única aparição em B&B. E uma oportunidade única dos fãs verem a versão de Jim Aparo para o Homem de Aço. 


Haney continuou a escrever boas histórias, mas continuava a ignorar como o Batman era caracterizado em outros títulos. Levitz começou a pedir que outros escritores, como Mike W. Barr e Cary Burkett “consertassem” os scrips. Obviamente, isso não foi do agrado de Haney. O passo seguinte foi o mais lógico: Haney é substituído, apesar da declaração de Levitz quando assumiu o título.

Então, com o número 157, de dezembro de 1979, Bob Haney, o escritor que definiu o título se despede de The Brave and the Bold. Foi o fim de uma era.



Na introdução de  Batman Illustrated by Neal Adams, o artista comenta sobre Haney: “Apesar de não terem o reconhecimento que elas merecem, as histórias de Bob Haney são clássicos na tradição dos super-heróis, com seus dramas e densidade no roteiro, com mudanças surpreendentes. Haney nunca será pago o suficiente em vida pela sua contribuição para o gênero. E isso é uma vergonha”.

Haney continuou escrevendo Unknown Soldier até o seu cancelamento, em 1982. E sumiu das páginas da DC. Depois de trinta anos colaborando com a editora, ele simplesmente se tornou mais uma página virada. Ele recebeu o Bill Finger Memorial Award for Excellence in Comics Writing , dado pela comissão dos prêmios Eisner, em 2011. Infelizmente, ele havia morrido em 2004, com 78 anos.

O fim

The Brave and the Bold continuou até o número 200, de Julho de 1983. Mas apesar de ser ilustrado principalmente por Aparo, a mágica tinha acabado. Ele tinha se tornado, apesar da quantidade de escritores que passaram por ele, um título previsível e formulaico. Uma das poucas exceções é o ótimo número 181, de Alan Brennert (que foi trazido para o título por Dick Giordano, quando ele assumiu a editoria do título. Brennert foi escritor de vários programas de TV, incluindo Buck Rogers in the 25th Century).

Nesse número, Batman encontra Rapina e Columba e, na tradição de Haney, ignora muito da cronologia, mostrando-os como adultos, sendo que os seus colegas Titãs, em outros títulos da época continuavam adolescentes. Santa Ironia, Batman!



No final de1982, Len Wein se tornou o editor de B&B, substituindo Dick Giordano. Na época já existiam rumores que o título seria cancelado, o que foi confirmado por Wein no número 195. The Brave and the Bold, naquele período que os quadrinhos estavam mudando, se tornou um anacronismo, sendo considerado um fóssil pela maioria dos leitores.

Então com o número 200, uma edição de 68 páginas em uma história de Mike W Barr e desenhos de Dave Gibbons que colocava o Batman da Terra-1 e o da Terra-2 em uma aventura em dois períodos diferentes, a edição deu adeus.




O Legado

The Brave and The Bold gerou todo um novo estilo de quadrinhos, os títulos de team-ups. A Marvel usou e abusou do formato. A DC lançou em 1978 a DC Comics Presents, com o mesmo formato, mas usando o Superman, que durou  97 números e quatro anuais, de 1978 a 1986.

Em 2008, estreou o desenho animado de mesmo nome, com três temporadas e 65 episódios, em uma das mais interessantes versões animadas de Batman.

Em 2007, a DC lançou o segundo volume da série, inicialmente com o roteiro de Mark Waid e desenhos de George Pérez. A série durou 35 números, terminando em 2010.

Mas acima de tudo, The Brave and The Bold foi um título que mostrou que os quadrinhos podiam ser divertidos, com um alto valor de entretenimento. Sem amarras, sem  preocupações. E no final, essa foi a sua maior ousadia.

Bravo.

Serviço

As histórias  (ainda que não todas) de The Brave and the Bold podem ser lidas em vários reprints. Os melhores são em três volumes do Showcase Presents (edições em preto e branco com mais de 500 páginas) e  em dois volumes em capa dura chamados The Legends of the Dark Knight: Jim Aparo.

No Brasil, B&B teve histórias publicadas pela EBAL. A fase “histórica” como backups em vários títulos e os team-ups se espalhando por vários, títulos, o mais notável deles Superduplas (com 24 números, de 1978 a 1980. A editora Abril também chegou a publicar algumas histórias no primeiro volume de Batman, em 1984.

Agradecimentos ao Toni Rodrigues. Essa é para você, Toni.














quinta-feira, 30 de outubro de 2014

A Tumba de Dracula, Tom Field


Em 2004, para comemorar os 25 anos do encerramento de  Tomb of Dracula, um dos títulos de terror mais cult de todos os tempos, a Back Issue número 6, da editora TwoMorrows publicou uma extensa matéria sobre a obra máxima de Marv Wolfman e Gene Colan, escrita por Tom Field. Aqui a tradução de uma parte dela. 


Happy Halloween!





Ninguém sabia.
O editor da Marvel Comics na época, Stan Lee, que decidiu em 1971 que Dracula deveria ser o primeiro monstro na história dos quadrinhos a estrelar a sua própria série, não sabia. Nem Roy Thomas e Gerry Conway que produziram a estréia do Senhor dos Vampiros.

Também não sabia o artista veterano Gene Colan, que queria tanto o trabalho em Dracula que fez um teste para consegui-lo. Nem mesmo Marv Wolfman que relutantemente assumiu o título no número sete e então viu a revista – e a sua carreira – decolar como o proverbial morcego saindo do inferno.
Muitos  dizem que a série foi a avó do selo Vertigo, mas quem poderia saber?

Ninguém sabia que Tomb o f Dracula (TOD), que começou como mais um título aproveitando a onda de terror, duraria oito anos e 70 números e daria luz a uma horda de personagens memoráveis, quatro filmes derivados e uma base de fãs devotados que hoje celebra TOD como o melhor título de horror dos anos setenta. E talvez o melhor quadrinho daquela época. Ponto.

Hoje, 32 anos após a sua estréia, TOD e seus criadores continuam tendo seguidores leais e uma série que terminou  há tanto tempo continua a atrair novas gerações de fãs graças a reimpressões e aos filmes com um personagem de TOD, Blade, o Caça Vampiros. Em 2002, aproveitando Blade II, a Marvel lançou um encadernado reimprimindo TOD 45-53 – o confronto de Blade com o arqui-vilão Deacon Frost. Tal coleção foi seguida em 2003 pelo primeiro volume de The Essential Tomb of Dracula, que reimprimiu os números 1 a 25, além de Giant-Size Dracula 1. A edição vendeu tão bem que no meio de 2004 a Marvel lançou o segundo volume do Essential (com TOD 26-49 e Giant-Size Dracula 2-5, Nada mau para um título que havia acabado vinte e cinco anos antes.

Para comemorar a notável longevidade – e honrar os criadores que deram vida ao personagem  - vamos examinar a história da revista de terror que fez História.

O Nascimento de Dracula

Savage Tales parece que foi um sucesso tão grande que nós vamos publicar mais uma nos mesmos moldes, uma belezinha custando 50  centavos chamada de The Tomb of Dracula (ou The House of Dracula, nós não decidimos ainda). É um conceito totalmente novo, estrelando o próprio Dracula, como ele é – era – e talvez venha a ser. Com arte de Gene Colan, Berni(e) Wrightson e Gray Morrow, entre outros, e um time de escritores titânicos, capitaneados pelos Mestres da Marvel, Stan Lee e Roy Thomas! Modéstia a parte, é algo que vocês não podem perder!

“Item”,  Marvel Bullpen Bulletins, 1971.

Por incrível que pareça, Tomb of Dracula deve a sua existência ao Comics Code Authority. Quando o código foi afrouxado em 1971, vampiros, lobisomens e outros monstros puderam ser usados novamente nos quadrinhos comuns. A Marvel testou o mercado com Morbius, o Vampiro Vivo, apresentado como vilão em Amazing Spider-man 101. Quando o sanguessuga “real” provou ser um sucesso, Stan Lee – sempre ansioso para antecipar a próxima grande tendência – mandou que se criasse uma linha inteira de quadrinhos de monstro, com os personagens mais conhecidos: o monstro de Frankenstein, um lobisomem ... e Dracula.

Apesar do lobisomem aparecer primeiro – Werewolf By Night estreou em Marvel Spotlight 2 (Fevereiro de 1972), ganhando de TOD 1 por dois meses, Dracula sempre foi a ideia de ser a estrela de horror da Marvel. Sua estréia foi anunciada quase um ano antes em um Bullpen Bulletins (veja acima), como o segundo título maduro da Marvel e seria publicado em preto e branco e em formato magazine.


Mas não foi bem assim. Três meses após o anúncio inicial (e depois do “sucesso tão quente”, Savage Tales, ter parado de ser publicada depois de apenas um número), a Marvel declarou que TOD seria um quadrinho colorido no formato regular, com 52 páginas e ao preço de 25 centavos. Logo em seguida, o título foi reduzido ainda mais uma vez para 32 páginas a 20 centavos.
E o projeto teria um novo escritor – o mais jovem roteirista da Marvel, Gerry Conway. Apesar de ter apenas dezenove anos na época, Conway  já tinha um currículo impressionante, com trabalhos em Daredevil, Sub-Mariner e Thor. Então não foi apenas sorte que fez que o tão falado projeto caísse em suas mãos.

E apesar de Conway ter recebido o crédito por ter escrito TOD 1 sozinho, ele teve ampla ajuda de Lee e Thomas lembra da origem do título: “Eu fiz o roteiro de TOD 1 baseado em algumas frases de Stan e então dei a Conway para que ele colocasse o diálogo”. Na época, Lee estava escrevendo cada vez menos, se preparando para ser o próximo publisher da Marvel, então essa explicação faz sentido. E Thomas, que foi escolhido a dedo para ser o seu sucessor como o escritor principal da editora, não tinha nenhum interesse de escrever novos títulos de monstro. “Eu não curtia muito terror”, diz Thomas. “Gerry curtia e foi por isso que ele acabou fazendo os diálogos de meus roteiros nas primeiras histórias de Tomb of Dracula, “O Homem-Coisa (em Savage Tales 1) e Werewolf by Night.

Para estabelecer o Dracula da Marvel, Thomas claramente usou os monstros da Universal de sua juventude na década de quarenta. O seu roteiro básico para TOD 1: Frank Drake, descendente do lendário conde, herda o Castelo Dracula (bem aos moldes do filme Son of Frankenstein). O “amigo” de Drake, Clifton Graves, monta um esquema para transformar o castelo em uma atração turística, e os dois – junto com Jeanie, a noiva de Frank, que por acaso também é a ex de Clifton – viajam para a Transilvânia para os preparativos. Lá, enquanto trama para matar Frank, ficar novamente com Jeanie e enriquecer rapidamente com o castelo, Clifton encontra por acaso a tumba de Dracula. Ele abre o caixa, acha os ossos arranca a estaca (como Karloff em House of Frankenstein) e logo em seguida... Dracula vive! 

Conway declara que ele não fez nada em TOD 1 até que a história estivesse completamente desenhada e tentou distinguir-se com uma prosa rebuscada. “Eu tentei usar um estilo de escrita um tanto sombrio e misterioso – ok, pretensioso, vamos dizer”, ri Conway, hoje um escritor de televisão. 
“Quer dizer, eu tinha dezenove anos – o que eu poderia saber?”

O artista Gene Colan, por outro lado, tinha 45 anos e era fã de terror de longa data (desde os cinco anos, quando ele foi aterrorizado por uma matine de Frankenstein, com Boris Karloff), e ele viu Dracula como um trabalho dos sonhos. Um ilustrador conhecido por sua exuberante representação da expressão humana, Colan tinha uma experiência extensa em todos os gêneros de quadrinhos, incluindo passagens memoráveis por em Hopalong Cassidy nos anos 50 na DC e nos quadrinhos de terror em preto e branco da Warren no meio dos anos sessenta.  Mas sua fama veio realmente na época dourada do início da Marvel, desenhando Iron Man, “Namor” (em Tales to Astonish) e especialmente Daredevil, o qual ele vinha desenhando desde 1966, se estabelecendo claramente como o artista definitivo do Demolidor. Mas em 1971 Colan estava claramente entediado e queria um novo desafio. Então, quando ele ficou sabendo nos corredores da editora que a Marvel ia publicar Dracula ele decidiu que ele queria desenhá-lo. “Stan, eu realmente estou te implorando isso”, Colan lembra ter dito a seu chefe – o que foi surpreendente para uma artista que sempre ficou na sua e desenhava o que lhe mandavam.  Quando Lee perguntou o porquê, Colan respondeu: “Porque eu sei que é algo que eu vou adorar fazer”.

De acordo com Colan, Lee prometeu Dracula a ele, mas depois esqueceu e o mesmo trabalho a Bill Everett. Sabendo da confusão, Colan lembrou Lee o acordo verbal que haviam feito. Mas não adiantou. O trabalho agora era de Everett. Devastado, Colan se resignou. Mas sua esposa Adrienne não. Inspirado por histórias sobre Marlon Brando, que tinha colocado algodão nas bochechas e fez o teste para O Poderoso Chefão, depois que o estúdio disse a ele que “ele não se encaixava no papel”, Adrienne insistiu que Gene fizesse um teste para Dracula. E ele fez. Ele trabalhou em uma página inteira, lápis e tinta (e aguada), em um estudo de um Dracula com cabelos e barba negros, incluindo um retrato do conde e uma montagem do rei dos vampiros em diferentes poses (ver abaixo). Ele baseou sua interpretação não em nenhuma das interpretações clássicas de Bela Lugosi ou Christopher Lee, mas sim no ator Jack Palance, que impressionou Colan com seu desempenho como o Dr. Jeckyll/Mr. Hyde no filme para TV de 1968 produzido por Dan Curtis. “Ele tinha aquela aparência cadavérica, aquele olhar de serpente no rosto”, diz Colan. “Eu sabia que Jack Palance seria um Dracula perfeito.” (o que aconteceu mais tarde, em 1974, quando ele fez um filme para TV para o mesmo Curtis). “Eu mandei a montagem para Stan e na manhã seguinte ele me ligou e disse apenas: ‘É seu’”, diz Colan. “E foi isso!”




Não mesmo. Além de desenhar TOD, Colan também queria fazer a arte-final – o que ele raramente tinha feito para a Marvel. No começo Lee resistiu. Afinal, o valor de Colan era de um desenhista que fazia o lápis de múltiplos títulos, não um artista completo em apenas um – mas no final ele aceitou. Conway lembra que Lee decidiu assim porque TOD era para ser um título preto e branco, em formato magazine, e Stan sabia que Colan era um mestre em aguadas de nanquim. “O trabalho de Gene, quando ele o arte-finaliza, fica melhor quando ele usa aguadas – ele faz sombras e formas cheias de nuances.”, diz Conway. “ [Lee] provavelmente não daria o pode para Gene finalizar a si mesmo se [TOD] fosse um título colorido normal desde o princípio, porque o detalhismo de linha de Gene não se adapta muito bem ao processo de impressão padrão.”







É verdade. Quando o título foi convertido para cores, a arte de Colan apareceu sem a aguada e o resultado (que não foi culpa de Colan) foi suprimido, como aponta Conway. E apesar de Colan ter feito o lápis das setenta edições de TOD, ele nunca mais fez a arte-final de outra além da primeira.
Abril de 1972: A estréia. Finalmente, após nove meses de preparação e antecipação. TOD 1 com uma memorável capa de Neal Adams (com um Dracula que, francamente, lembra bem pouco o personagem que vemos dentro da revista) foi lançada. E a reação inicial foi... morna. O título vendeu bem o suficiente para justificara sua continuação, com certeza. Acontece isso com a maioria dos primeiros números. Mas as primeiras cartas dos fãs, que foram impressas em TOD 3 e 4, incluíam várias reclamações sobre a versão da Marvel para Dracula. O roteiro parecia derivativo, a arte contida, alguns leitores disseram. Outros não gostaram da cor pálida, quase branca de Dracula, ou como a sua mordida criava vampiros quase instantaneamente (ao contrário da costumeira espera de três dias). Uma fã, Margareth McClelland Watson, de Urbane, Illinois, que se alto descreveu como uma candidata ao doutorado em História Medieval dos Estados Bálcãs, escreveu uma longa carta detalhando como toda a versão vampiresca da Marvel estava errada. 

Mas alguns fãs perceberam que TOD prometia. Entre eles um jovem de Louisville, Kentucky chamado David Michelinie, que pouco tempo depois faria seu nome nos quadrinhos, como escritor. Em sua carta em TOD 3, Michelinie escreve: “ a única coisa que eu gostei sem restrições no primeiro número foi o potencial de um conceito genial. Uma revista de terror com uma história inteira e inédita, com um personagem principal contínuo (e sendo um monstro!) é algo novo no mundo dos quadrinhos de hoje, e muito pode ser feito. Histórias escritas inteligentemente sobre os feitos, viagens e aventuras do vampiro, tanto na sombria Transilvânia quanto ao redor do mundo pode ser extremamente divertidas e inovadoras, como tem sido o trabalho de vocês com aquele bárbaro, Conan.”

Para fechar, Michelinie escreve profeticamente: “Deixe-me dizer que vocês tem uma história muito boa – se vocês fizerem as coisas do jeito certo.”

Dores de Crescimento

Se a Marvel tinha um plano-mestre para Tomb of Dracula, isso não é evidente nos primeiros seis números.
Começando no número 2, TOD sofreu a primeira de uma série de mudanças sísmicas que chacoalharam o título durante todo o seu primeiro ano. Primeiramente, o título foi promovido de trimestral para bimestral, mas o número de páginas de história foi podado de 25 para 21 e depois para 20. E apesar de Conway assumir alegremente o argumento além do diálogo a partir do segundo número, Colan relutantemente desistiu de fazer a arte-final, que foi entregue para... Vince Colletta.
Imaginem o choque dos leitores quando foram do trabalho completo de Colan em TOD 1 para a colaboração não muito confortável entre Colan e Colletta no número 2. Então imaginem o choque do próprio Colan quando viu os seus personagens cuidadosamente construídos e seus cenários suaves e detalhados apagados por Colletta, o falecido arte-finalista a jato, cujos atalhos artísticos sempre geraram controvérsia. “Eu não gostei da sua interpretação de meu trabalho”, diz Colan sobre Colletta. “Ele estragou tudo”. Colan entendia porque os editores gostavam de Colletta, que finalizou as primeiras histórias de Namor desenhadas por Colan. “Eles podiam dar um trabalho a ele e ele conseguia entregar no dia seguinte”, ele diz. Mas é claro, Colan não gostou dos resultados. “Eu trabalhava muito em minha arte. Por que alguém viria e... a destruiria? “

Conway compartilha a opinião de Colan sobre o trabalho de Colletta em TOD. “Eu não acho que Vinnie acrescentou nada ao projeto”, ele diz. “Ele era apenas um daqueles caras que pegavam muito trabalho, e ninguém nunca entendeu a razão. Ele podia trabalhar muito rápido, mas é claro que o que você recebia não era o mesmo que o desenhista colocava no papel. Isso era muito desapontador.”
A história no número 2 também foi bem diferente da do número 1, com menos influência dos monstros da Universal e mais dos filmes britânicos de terror da Hammer, que Conway preferia. “Meu filme de terror favorito foi, por muitos anos Horror of Dracula (o primeiro filme da Hammer com Dracula) , aquele com Christopher Lee como Dracula e Peter Cushing como Van Helsing”, diz Conway. “Eu o assisti pela primeira vez em minha sociedade de cinema na escola secundária e até a versão de Coppola eu acho que foi o Dracula mais interessante que eu já vi.”






Assim como a Hammer acabou introduzindo Dracula na Inglaterra do século vinte, Conway em TOD 2 mudou os personagens da Transilvânia rural para a Londres descolada dos anos setenta. O plot básico: Frank Drake salva Clifton Graves e com ajuda de um brutamontes mudo chamado Gort – um personagem que desapareceu da história tão rápida e inexplicavelmente quanto entrou – rouba o caixão de Dracula, escondendo-o em Londres por razões nunca explicadas.

Lá os homens são surpreendidos pela aparição da vampira Jeanie no banheiro do seu quarto de hotel. Ela facilmente seduz Clifton, que droga Drake para que Dracula (revigorado depois de uma noite na cidade) possa entrar e recuperar seu caixão. Drake acorda, uma briga acontece, e enquanto Dracula acaba escapando sem o seu caixão, 

E então Conway, que agora firmemente exerceu a sua influência na direção de TOD... deixa o título. A razão: fadiga. Sobrecarregado com seus trabalhos – o Bullpen de maio de 1972 nota que Conway escrevia seis dos dezoito títulos da Marvel, ou seja, mais ou menos 120 páginas – e ele tinha que deixar algo de lado. “Era muito trabalho, mesmo para um menino de dezenove anos que não tinha noção de proporção”, diz Conway. E, além disso, ele estava para enfrentar um dos maiores desafios da Marvel – tomar o lugar de Stan Lee como o escritor de Amazing Spider-man. “Certamente era um titulo muito mais importante para se concentrar”, ele diz.

Se Conway tivesse ficado em TOD, ele diz “minha ideia era fazer dele mais um título de terror. Existiam  elementos de super-heróis, que era uma premissa fantástica,e nós tínhamos Dracula como a estrela, com uma equipe tentando derrubá-lo” E apesar dele não lembrar de idéias específicas para a série, Conway diz “se você realmente quer ver onde eu poderia ter chegado com TOD, olhe Werewolf By Night, que eu escrevi por muitos números. Aquele [título] refletia mais o meu gosto.”

Com o número 3, o novo escritor de TOD foi Archie Goodwin, o muito respeitado ex-escritor e editor da Warren, que também ficou por apenas dois números. Mas na sua curta passagem, Goodwin transformou Clifton Graves no assecla de Dracula e introduziu dois grandes personagens que tiveram um papel significativo na série. Os caçadores de vampiro Taj Nital (um indiano mudo) e Rachel Van Helsing, a descendente de um dos mais antigos inimigos de Dracula.

Também vindo a bordo em TOD 3 foi o arte-finalista Tom Palmer, que tinha tido resenhas muito boas sobre o seu trabalho anterior com Colan , Doctor Strange. Um mestre de sombras e linhas delicadas, ele sempre deixava o trabalho que finalizava ainda melhor. Palmer era o “anti-Colletta” – combinando maravilhosamente com o lápis de Colan – e logo ele se transformou no arte-finalista permanente da série, recebendo o merecido reconhecimento como umas das forças criativas principais de Tomb of Dracula.




Ah, e outra mudança no número 3: Dracula perdeu a sua barba. Apenas perdeu, sem explicações. Nenhum dos criadores principais se recorda hoje exatamente porque a barba foi eliminada, mas Colan acha que a escolha pode ter sido dele. “Eu não gostava do cavanhaque – Dracula não parecia bem com ele”, diz Colan. “Então eu me livrei dele e deixei apenas um pequeno bigode”. Vale a pena notar, entretanto, que examinando a arte original de TOD, é claro que Colan desenhou a barba nos números 3 e 4, mas Palmer, por alguma razão, não passou a tinta.É uma escolha capilar que permanece até hoje um pequeno mistério.

No número 5, o ex-escritor da DC Gardner Fox entrou para uma passagem de dois números medíocres que brincavam com os mesmo temas lovecraftianos de sua igualmente curta passagem por Doctor Strange. Mas Thomas, que tinha se tornado o editor da Marvel – achou que Fox não combinava com TOD (ou com a Marvel, ponto), então ele logo foi substituído por um jovem escritor que também tinha acabado de migrar da DC. Começando no número 7, o Senhor dos Vampiros seria escrito por Wolfman.

Um “Homem Lobo” a Espreita

Marv Wolfman precisava de Tomb of Dracula da mesma forma que o titubeante título precisava de Wolfman.

Apesar de ele ter feito a difícil transição de fã para um profissional no fim dos anos sessenta – ele e seu amigo de infância Len Wein estavam entre os primeiros a fazer tal transição – Wolfman realmente não havia se distinguido. Ele tinha escrito e editado alguma coisa para a DC, Warren e Skywald. Mas pelo início de 1972 Wolfman era conhecido pelo trabalho que lhe custou o emprego- a controversa história de 1969 em Teen Titans, “Jericho”, que por causa de seus tons teve que ser reescrita e redesenhada e fez que Wolfman e Wein fossem colocados na lista negra da DC por um tempo. Atraído por Thomas para ser editor da nova linha em preto e branco da Marvel, ele esperava usar essa posição como catapulta para conseguir uma posição garantida de escritor fixo. Sua primeira tentativa foi o título que havia sido revivido, Captain Marvel, que ele escreveu (segundo sua própria descrição) por alguns números, todos eles sem graça. Então ele pediu Doctor Strange, mas o título não estava disponível. Mas lhe ofereceram TOD.

“Eu não queria escrever aquilo”, Wolfman lembra. Ele não era fã de terror (e na verdade tinha certo receio do gênero), nunca havia visto um filme de  Dracula e sabia que TOD estava um tanto estremecida graças as várias mudanças.

Ainda assim, Wolfman reconheceu uma oportunidade para escrever algo com quase total liberdade editorial e usar TOD para desenvolver a sua própria voz e estilo, sem ter que sofrer comparações com Stan e Roy. “Eu acho que ninguém esperava que TOD  tivesse sucesso, então ninguém me induziu a nada”, lembra Wolfman.
Mas tal liberdade era temperada com um saudável medo do fracasso. “Eu não queria destruir o título completamente”, diz Wolfman. “Sabia que isso provavelmente era meu teste de fogo na Marvel. Se não desse certo, eu estaria fora.”

Se preparando para o trabalho, Wolfman releu Dracula, de Bram Stoker , que para ele era tanto sobre os caçadores de vampiros quanto o próprio Dracula. Inspirado, Wolfman introduziu mais dois caçadores em TOD 7: Quincy Harker, o filho do protagonista de Stoker, Jonathan Harker, e relegado a uma cadeira de rodas e a filha de Quincy, Rachel. Os Harkers, juntamente com Frank Drake, Rachel Van Helsing e Taj, formariam um poderoso grupo que seria desenvolvido com o tempo por Wolfman. E eles seriam tão explorados quanto o próprio Dracula.

Com o número 7, uma edição calma para iniciar as coisas, a equipe criativa principal, Wolfman/Colan/Palmer, foram reunidos pela primeira vez – mas não por muito tempo. Começando com o número 8, Palmer tirou uma folga de quatro números e foi substituído por três arte-finalistas em seqüência:  Ernie Chan, no 8, Colletta novamente no 9 e Jack Abel no 10 e 11 – que não caíram bem com Colan ou com o próprio título.



O número de Colletta – o terceiro de Wolfman – quase se tornou o último do escritor. O problema começou quando Wolfman viu as páginas finalizadas de TOD 9 e as comparou com o lápis de Colan (a edição mostrava Dracula interagindo com os residentes de uma pequena cidade pesqueira do Reino Unido) e percebeu que o finalista tinha apagado virtualmente todos os cenários exuberantes desenhados por Colan.
Louco da vida (“Esse é um dos melhores trabalhos que Gene já fez!”), Wolfman confrontou Colletta, que parece ter negado a sabotagem – e então reclamou de Wolfman para Stan Lee, que convocou o nervoso jovem escritor para uma explicação. Felizmente, Wolfman tinha guardado fotocópias das páginas a lápis de Colan, e quando as comparou com as páginas finalizadas por Colletta, Lee concordou que ele tinha tomado “atalhos criativos” inaceitáveis. As páginas finalizadas foram entregues 

para serem restauradas, Colletta removido do título (ele nunca mais finalizaria outra TOD) e Wolfman deu um enorme suspiro de alívio porque ele tinha enfrentado um veterano dos quadrinhos e ficado incólume, retendo seu trabalho. “Ainda bem que Stan escolheu ficar com a qualidade do título”, diz Wolfman.

Curiosamente, esse número trazia uma história da amizade de conveniência entre Dracula e David, um jovem cheio de conflitos que morava em Liverpool. Foi a primeira na qual Wolfman sentiu que tinha domínio de Dracula e dos outros personagens principais. Para ter sucesso, Wolfman percebeu TOD não poderia ser apenas sobre Dracula, e Dracula não poderia ser mostrado unicamente como um vilão. Os leitores tinham que ser capazes de ter simpatia – pelo menos um pouco – pelo personagem-título.

Em seguida, no número 10, Wolfman apresentou Blade, o Caça Vampiros, o vigilante afro-americano que acabou estrelando vários títulos da Marvel além de três filmes com Wesley Snipes. De acordo com Wolfman, que perdeu uma batalha legal contra a Marvel pelo personagem, ele o criou anos antes de entrar na editora e acabar em TOD. É claro, não havia lugar melhor para estrear um matador de vampiros  que Tomb of Dracula? E quem melhor que Colan para ajudá-lo a dar vida a Blade? Colan lembra as primeiras discussões que ele teve sobre Blade com Wolfman.”Marv disse-me que Blade era um homem negro e nós conversamos como ele deveria se vestir, como ele deveria parecer – muito heróico”, diz Colan que baseou a sua representação de Blade em um amálgama de vários atores afro-americanos, incluindo e o ex-jogador de futebol Jim Brown.



“Marv pode ter dito: ‘Coloque as botas nele’, eu não me lembro”, Colan acrescenta. “O cinturão com lâminas – isso foi ideia de Marv. Mas eu o vesti, coloquei uma jaqueta de couro nele, e assim por diante”.





Desde o início os dois criadores sentiram que Blade era um personagem especial, e eles o mantiveram como um dos principais da série, fazendo-o caçar tanto Dracula quanto Deacon Frost, o vampiro de cabelos brancos que matou a mãe de Blade. Colan é especialmente orgulhoso da criação de Blade. “Eu sabia que ele era bom”, diz Colan. “Os negros não eram tão representados nos quadrinhos naquela época, então eu queria ser um dos primeiros a mostrá-los nos quadrinhos. Eu gostei disso”.
Mas apesar do entusiasmo trazido pela introdução de Blade, Wolfman acredita que o verdadeiro divisor de águas da série foi o número 12 – o início de uma história de três partes que incluía a morte chocante de uma grande personagem, a origem de Blade e a primeira morte e volta de Dracula na série. “Foi nesse arco que eu finalmente entendi o título”, diz Wolfman. Era sobre os personagens- Dracula e seus perseguidores, apesar de nem sempre nessa ordem e como eles se desenvolveram e cresceram. A chave para a série, Wolfman percebeu , era entender como os personagens interagiam e mudavam – então executar essas mudanças. “Dentro de pouco tempo, eu tinha feito o plot para dois anos do título”, diz Wolfman. “Eu não sabia necessariamente dos detalhes das histórias, mas eu sabia como os personagens cresceriam de número para número.”



E o número 12 também marca a volta do arte-finalista Tom Palmer e o início de uma série de 59 números consecutivos de Wolfman/Colan/Palmer – um número impressionante, mesmo hoje. Colan estava feliz em ter um mesmo arte-finalista – especialmente Palmer que era um dos seus favoritos de todos os tempos. “Eu gostava muito do trabalho de Tom”, diz Colan. “Tinha peso e ele colocava tudo o que eu gostava – bem no estilo de [cartunista Milton] Canniff. O meu trabalho não é fácil de ser seguido, e ele deve ter sofrido bastante. Mas Tom também é um ilustrador, fazendo muita arte comercial. Então, ele era mais que adequado para isso”.

E apesar de Colan ter trabalhado apenas uma vez com Wolfman antes de TOD, em uma história curta para uma antologia de terror do começo dos anos 70, ele rapidamente se deu bem com o jovem escritor, que sabia trabalhar com os pontos fortes de Colan, além de envolvê-lo na criação da história. “Ele me dava um roteiro escrito, mas também o discutia comigo pelo telefone”, diz Colan. “Eu fazia perguntas e mais perguntas, ao invés de deixá-lo achando que eu tinha entendido tudo.”

Wolfman estava honrado em trabalhar com Colan. “Havia mágica no trabalho de Gene em Tomb of Dracula, algo que eu acho que nem mesmo ele entendia”, diz Wolfman. “Ele podia fazer coisas de super-heróis – ele certamente provou isso com Daredevil, Iron Man e todos os outros – mas ele se achou completamente em TOD, de uma maneira que nem mesmo ele podia imaginar.”

Os leitores certamente adoravam o trabalho de Wolfman e Colan, e TOD rapidamente foi promovido ao status de título mensal. E para os observadores que estavam mais perto, como Adrienne Colan, a sinergia Wolfman/Colan era evidente desde o primeiro dia. “Era muito claro que Marv se preocupava com a escrita, da mesma forma que Gene se preocupava com a arte”, lembra Adrienne. E isso, com certeza, era a ligação mais poderosa entre eles.

Uma ligação que, certamente,  geraria uma das mais importantes e impressionantes passagens dos quadrinhos.


Serviço

Tomb of Dracula teve várias publicações nos EUA, a última delas sendo três Omnibus coloridos entre 2008 e 2011. Também saíram quatro Essentials, em preto e branco, entre 2004 e 2005.

No Brasil, Tomb of Dracula foi publicada pela última vez pela Editora Abril, com o título Terror de Drácula, décadas atrás.

A Panini prometeu a publicação de um volume ainda em outubro, reunindo os primeiros cinco números.

Quem se interessar na Back Issue, revistas sobre quadrinhos das Eras de Prata e (principalmente) Bronze, podem adquirir os números no site da editora:


http://twomorrows.com/